Quando um idoso com Alzheimer surta, mantenha a calma, reduza os estímulos, garanta a segurança e tente identificar o que provocou a mudança. Não discuta nem tente obrigá-lo a reconhecer a realidade. Se houver risco de ferimentos, alteração súbita do comportamento ou sinais como febre, falta de ar, desmaio ou fraqueza em um lado do corpo, procure atendimento de urgência.
A palavra “surto” costuma ser usada pela família para descrever gritos, agressividade, acusações, alucinações, agitação ou tentativas de sair de casa. Esses comportamentos podem ocorrer na doença de Alzheimer, mas também podem indicar dor, infecção, efeito de medicamentos ou outro problema de saúde. Por isso, episódios novos ou muito intensos precisam de avaliação médica individual.
Passo a passo durante o episódio
1. Controle primeiro a sua reação
Respire fundo e fale devagar, com tom baixo. Embora seja difícil, demonstrar irritação, medo ou pressa pode aumentar a agitação.
Aproxime-se pela frente, diga quem você é e avise o que pretende fazer. Evite tocar no idoso de surpresa, especialmente por trás.
2. Torne o ambiente mais seguro
Afaste objetos cortantes, pesados ou que possam quebrar. Desligue fogão e aparelhos perigosos, feche o acesso a escadas e mantenha uma saída livre para o cuidador.
Retire crianças e outras pessoas do local. Se houver armas em casa, elas devem permanecer descarregadas, trancadas e sem acesso pelo idoso.
Não encurrale a pessoa. Fique a uma distância segura e evite segurá-la à força, pois a contenção física pode provocar quedas, ferimentos e ainda mais medo. Se não for possível manter a segurança, peça ajuda e acione o serviço de emergência.
3. Diminua os estímulos
Desligue televisão e música, reduza ruídos e peça que apenas uma pessoa converse com o idoso. Ambientes cheios, quentes, escuros ou muito movimentados podem piorar a confusão.
Leve-o, se ele aceitar, para um local conhecido, tranquilo e bem iluminado. À noite, uma iluminação suave pode reduzir sombras que sejam interpretadas como pessoas ou ameaças.
4. Não discuta com a percepção do idoso
Durante o episódio, tentar provar que ele está errado geralmente não funciona. Frases como “isso é mentira”, “você está confundindo tudo” ou “já expliquei várias vezes” podem aumentar a angústia.
Primeiro, reconheça o sentimento, mesmo que a situação descrita não seja real. Você pode dizer:
- “Eu percebo que o senhor está assustado.”
- “Estou aqui com você e vamos ficar em segurança.”
- “Vamos para um lugar mais tranquilo?”
Evite perguntas longas. Ofereça uma escolha simples por vez, como sentar na cadeira ou no sofá.
5. Procure uma necessidade não atendida
A agitação pode ser uma forma de comunicar desconforto. Sem fazer um interrogatório, observe se o idoso apresenta:
- dor, febre, tosse ou dificuldade para respirar;
- fome, sede ou vontade de ir ao banheiro;
- prisão de ventre ou dificuldade para urinar;
- roupa apertada, calor ou frio;
- cansaço, sono ruim ou excesso de barulho;
- aparelho auditivo ou óculos ausentes;
- mudança recente de medicamento ou de rotina.
Ofereça água ou alimento somente se ele estiver desperto, conseguir engolir normalmente e aceitar. Não force.
6. Redirecione a atenção
Quando a intensidade diminuir, proponha uma atividade familiar e simples: ouvir uma música tranquila, olhar fotografias, dobrar toalhas ou caminhar em um espaço seguro.
O objetivo não é “vencer” a discussão, mas ajudar o cérebro a sair daquela situação de ameaça. Às vezes, mudar de assunto com naturalidade funciona melhor do que continuar buscando explicações.
O que não fazer
Durante uma crise de agitação, evite:
- gritar, ameaçar, ironizar ou castigar;
- reunir várias pessoas para tentar convencê-lo;
- fazer movimentos bruscos;
- bloquear a passagem ou encurralá-lo;
- imobilizá-lo sem orientação profissional;
- oferecer medicamento por conta própria ou repetir uma dose;
- deixar o idoso sozinho em local com risco de queda ou fuga.
Medicamentos podem ser necessários em situações específicas, mas também podem causar sonolência, quedas e outras complicações. A decisão deve ser tomada por um médico após avaliar benefícios, riscos e possíveis causas do comportamento.
Quando procurar atendimento urgente
Uma mudança repentina no comportamento não deve ser atribuída automaticamente ao Alzheimer. Ela pode representar um delirium, estado de confusão aguda provocado, por exemplo, por infecção, desidratação, dor, alterações metabólicas ou medicamentos.
Procure atendimento imediato se houver:
- risco de o idoso machucar a si mesmo ou outra pessoa;
- falta de ar, dor no peito, convulsão ou desmaio;
- queda com possível trauma, especialmente na cabeça;
- fraqueza em um lado do corpo, fala alterada ou boca torta;
- febre, sonolência intensa ou dificuldade para despertar;
- recusa persistente de líquidos;
- confusão muito diferente do padrão habitual;
- alucinações ou agressividade iniciadas de forma súbita.
Diante de risco imediato, mantenha distância segura e ligue para o SAMU pelo 192. Não tente transportar sozinho um idoso muito agitado se isso colocar alguém em perigo.
O que fazer depois que ele se acalmar
Não repreenda nem exija explicações. Muitas pessoas com Alzheimer não conseguem lembrar do episódio ou compreender totalmente o que aconteceu.
Registre informações para conversar com o médico:
- horário e duração do episódio;
- comportamento apresentado;
- acontecimentos anteriores à crise;
- sintomas físicos percebidos;
- alimentação, hidratação, sono e funcionamento intestinal;
- medicamentos em uso e mudanças recentes;
- estratégias que ajudaram ou pioraram a situação.
Mesmo que o episódio passe, uma alteração nova, recorrente ou mais intensa merece avaliação. O geriatra poderá revisar doenças clínicas, dor, visão, audição, rotina e medicamentos, além de orientar a família conforme as características daquele idoso.
Como reduzir o risco de novos episódios
Nem sempre é possível evitar a agitação, mas algumas medidas podem ajudar:
- manter horários previsíveis para acordar, comer e dormir;
- favorecer atividades leves durante o dia, conforme orientação profissional;
- evitar excesso de cafeína, ruído e compromissos cansativos;
- manter boa iluminação, principalmente no fim da tarde;
- acompanhar hidratação, evacuação e sinais de dor;
- deixar banheiro e objetos importantes bem sinalizados;
- revisar periodicamente os medicamentos com o médico;
- dividir os cuidados entre familiares e cuidadores.
O esgotamento do cuidador também importa. Ter uma rede de apoio e momentos de descanso ajuda a família a responder com mais segurança e serenidade.
Perguntas frequentes
A agressividade significa que o Alzheimer piorou?
Não necessariamente. Pode estar relacionada à progressão da doença, mas também a dor, infecção, mudança de ambiente, sono ruim ou medicamentos. É necessária avaliação médica.
Devo concordar com tudo o que o idoso diz?
Não é preciso confirmar uma ideia falsa. Evite confrontar e acolha o sentimento: “Entendo que isso assusta; estou aqui para ajudar”. Depois, tente redirecionar a atenção.
Posso dar um calmante durante a crise?
Não ofereça calmantes ou doses extras por conta própria. Esses medicamentos podem provocar quedas, sonolência e outras complicações. Siga apenas um plano definido pelo médico para aquele paciente.
Quando o comportamento vira uma emergência?
Quando há perigo de agressão, fuga ou ferimento, ou sintomas como falta de ar, desmaio, convulsão, febre, fraqueza súbita ou confusão muito diferente do habitual. Nesses casos, procure urgência ou ligue 192.
O idoso se lembra do que fez?
Pode lembrar parcialmente ou não lembrar. Evite culpá-lo depois do episódio. Registre o ocorrido e converse com o médico para investigar causas e planejar cuidados individualizados.
