É comum uma pessoa idosa tratar mais de uma doença ao mesmo tempo. Hipertensão, diabetes, osteoporose, dor crônica, depressão, problemas cardíacos e distúrbios do sono podem exigir diferentes tratamentos. Por isso, usar vários medicamentos não significa automaticamente que exista um erro.
O problema aparece quando o conjunto de remédios deixa de ser bem coordenado: há duplicidades, interações, medicamentos que já não são necessários, efeitos adversos ou um esquema tão complexo que passa a ser difícil segui-lo com segurança.
Essa situação costuma ser discutida dentro do conceito de polifarmácia.
O que é polifarmácia?
Em muitos estudos, polifarmácia é definida como o uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos. Esse número, porém, é apenas um ponto de referência. Uma pessoa pode precisar de sete medicamentos bem indicados e tolerados, enquanto outra pode ter problemas importantes com três.
Por isso, a pergunta mais útil não é “quantos remédios o idoso toma?”, mas sim:
cada medicamento ainda tem uma indicação clara, benefício esperado e segurança aceitável para esta pessoa?
A revisão precisa considerar doenças, função renal e hepática, pressão arterial, risco de quedas, memória, autonomia, expectativa de benefício e objetivos de cuidado.
Por que a idade muda a forma como o organismo lida com medicamentos?
Com o envelhecimento, a composição corporal e a função de órgãos envolvidos na eliminação de medicamentos podem mudar. Além disso, idosos têm maior probabilidade de conviver com múltiplas doenças e de receber prescrições de profissionais diferentes.
Isso aumenta a chance de:
- interação entre medicamentos;
- duplicidade de tratamentos;
- efeitos sedativos somados;
- queda de pressão;
- confusão ou piora da atenção;
- constipação e retenção urinária;
- alterações de equilíbrio;
- sangramentos;
- alterações da glicose;
- dificuldade para organizar horários e doses.
Nem todo sintoma novo é causado por um remédio, mas medicamentos devem fazer parte da investigação.
Quais sinais podem indicar que está na hora de revisar a prescrição?
Uma revisão é especialmente importante quando surge:
- tontura ou desmaio;
- quedas recentes;
- sonolência excessiva;
- confusão ou mudança de comportamento;
- perda de apetite;
- náuseas ou constipação persistente;
- pressão muito baixa;
- dificuldade para organizar os horários;
- uso repetido do mesmo princípio ativo em marcas diferentes;
- internação recente ou alta hospitalar com mudança da receita.
Também vale revisar periodicamente quando a pessoa usa muitos medicamentos mesmo sem sintomas aparentes.
Existe uma lista de remédios “proibidos” para idosos?
Não exatamente. Existem instrumentos que ajudam profissionais a identificar medicamentos que podem ser potencialmente inadequados em determinadas situações.
Um dos mais conhecidos é o Critério de Beers, atualizado pela American Geriatrics Society. Ele reúne medicamentos e combinações que merecem cautela em adultos com 65 anos ou mais por apresentarem, em certos contextos, uma relação desfavorável entre benefício e risco.
A palavra mais importante é “potencialmente”. Um medicamento presente nessas listas pode ser apropriado para uma pessoa específica. O instrumento serve para provocar uma revisão clínica, e não para substituir o julgamento médico.
Desprescrever é simplesmente cortar remédios?
Não. Desprescrição é um processo planejado e supervisionado para reduzir ou interromper medicamentos quando o risco passa a superar o benefício ou quando o tratamento já não faz sentido para os objetivos daquela pessoa.
Isso pode incluir:
- confirmar todos os medicamentos realmente utilizados;
- identificar por que cada um foi iniciado;
- avaliar benefício atual e possíveis danos;
- procurar duplicidades e interações;
- priorizar quais medicamentos poderiam ser reduzidos ou retirados;
- acompanhar sintomas depois da mudança.
Alguns fármacos precisam ser reduzidos gradualmente. Outros não devem ser interrompidos de forma abrupta. Por isso, a família não deve “limpar a receita” por conta própria.
A revisão de medicamentos realmente ajuda?
Estudos recentes continuam investigando a melhor forma de fazer isso. Um ensaio clínico publicado em Age and Ageing em 2026 avaliou revisão de medicamentos com foco em desprescrição em idosos com hiperpolifarmácia. A intervenção aumentou o número de medicamentos reduzidos ou suspensos, embora não tenha mostrado diferença significativa em qualidade de vida ou problemas de saúde no período analisado.
Isso é importante porque evita uma mensagem simplista: tirar mais remédios não é, por si só, o objetivo. O objetivo é tornar o tratamento mais apropriado, seguro e alinhado às prioridades da pessoa idosa.
Como a família pode preparar uma revisão de medicamentos?
Uma estratégia prática é levar para a consulta todos os medicamentos realmente usados, e não apenas a receita mais recente.
Inclua:
- remédios prescritos por diferentes médicos;
- medicamentos comprados sem receita;
- vitaminas e suplementos;
- colírios, pomadas e inaladores;
- medicamentos usados apenas “quando precisa”.
Se possível, leve as próprias caixas ou uma lista com nome, dose, horário e motivo de uso.
Também anote sintomas recentes e quando começaram. A relação entre o início de um medicamento e uma nova queixa pode ser uma pista importante.
O que nunca fazer por conta própria?
Não suspenda de forma abrupta medicamentos para pressão, coração, epilepsia, ansiedade, depressão, sono, dor crônica ou outros tratamentos sem orientação.
A interrupção inadequada pode causar rebote de sintomas, descompensação da doença ou outros eventos adversos.
Da mesma forma, não é seguro usar o remédio de outro familiar ou duplicar uma dose porque “a pressão estava alta” ou “a glicose subiu”.
Quando procurar um geriatra?
O geriatra pode ser especialmente útil quando existem múltiplos médicos, múltiplas doenças e múltiplos medicamentos. A consulta permite avaliar o conjunto, e não cada doença isoladamente.
Essa revisão pode integrar:
- riscos e benefícios de cada medicamento;
- função renal;
- pressão arterial;
- quedas e equilíbrio;
- memória e cognição;
- sono;
- dor;
- capacidade de administrar a própria medicação;
- prioridades e objetivos do paciente e da família.
Em muitos casos, o melhor cuidado não é adicionar mais um remédio, mas organizar melhor o que já está sendo usado.
Perguntas frequentes
Cinco remédios já significam polifarmácia perigosa?
Não. Cinco ou mais medicamentos é uma definição usada em muitos estudos, mas o número isolado não define se o tratamento é inadequado. Importam indicação, benefício, interação, tolerabilidade e capacidade de uso seguro.
Se o idoso está bem, precisa revisar os medicamentos?
Sim, periodicamente. Doenças, função renal, peso, alimentação e objetivos de tratamento mudam ao longo do tempo. Uma receita adequada há dois anos pode precisar de ajustes hoje.
Vitaminas e suplementos entram na revisão?
Sim. Eles também podem causar efeitos adversos ou interagir com medicamentos. Leve todos para a consulta.
Quem pode retirar um medicamento?
A decisão deve ser feita por um profissional habilitado que conheça a indicação e o quadro clínico. Quando há vários prescritores, a comunicação entre eles é especialmente importante.
Em resumo
Polifarmácia não significa simplesmente “tomar muitos remédios”. O verdadeiro problema é o uso de medicamentos sem benefício suficiente, com riscos evitáveis ou sem coordenação adequada.
Uma revisão estruturada pode identificar oportunidades de simplificar o tratamento, reduzir efeitos adversos e tornar a rotina mais segura — sempre com acompanhamento profissional.
Fontes científicas principais
- American Geriatrics Society. 2023 updated AGS Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults. Journal of the American Geriatrics Society, 2023.
- Baas G et al. Deprescribing in older patients with hyperpolypharmacy: a cluster-randomised trial in primary care. Age and Ageing, 2026.
- Omuya H et al. A systematic review of randomised-controlled trials on deprescribing outcomes in older adults with polypharmacy. International Journal of Pharmacy Practice, 2023.
